Crise de Autoridade?
- segunda-feira, abril 13, 2009, 2:00
- Comportamento
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Crise de Autoridade?
por Rubens Mário Mazzini Rodrigues *
“Apaixonados, irascíveis, capazes de serem arrebatados por
seus impulsos, ainda que tenham altas aspirações. Se o jovem
comete uma falta é sempre no lado do excesso e do exagero,
uma vez que levam todas as coisas longe demais”
Aristóteles
A percepção de Aristóteles (filósofo grego nascido em 384 AC) sobre os adolescentes mostra que os adolescentes sempre foram iguais em todas as épocas, pois existem algumas características que são próprias da fase de desenvolvimento em que se encontram. O adolescente é uma espécie de ser híbrido, ainda não deixou totalmente de ser criança e ainda não se tornou um adulto. Essa passagem da infância para a idade adulta é sempre sofrida e tormentosa em alguma medida. A principal tarefa do adolescente é criar uma identidade própria, através de um processo chamado individuação, isto é, tornar-se um indivíduo, um ser único e diferente dos demais, especialmente – para tormento dos mesmos – dos pais. Esse, no entanto, não é um processo tão simples como pode parecer a princípio, pois inclui algum grau de ambivalência. Apesar de querer se distinguir dos pais, esses são ao mesmo tempo os principais modelos disponíveis de identificação. O dilema do adolescente, então, é: como ser um ser distinto dos pais preservando as qualidades destes e evitando a aquisição de seus defeitos?
Nessa busca angustiante, da qual depende seu futuro como ser social, o adolescente procura fora do ambiente familiar, modelos alternativos de identificação. Mas, feliz ou infelizmente, ele não está sozinho nessa busca, ele vai encontrar uma turma de outros adolescentes empenhados no mesmo objetivo. Assim, ao mesmo tempo em que se diferenciam dos pais, procuram desesperadamente se identificar com o grupo, de modo a ser aceito e valorizado pelo mesmo. No afã desta procura os adolescentes precisam contestar o mundo dos adultos, no qual encontram enormes defeitos e contradições, com a conclusão óbvia de que são os adultos que o criaram. Como, então, esses adultos, tão cheios de falhas e imperfeições, podem querer se constituir em autoridades capazes de lhes ditar o que é certo e o que é errado e como devem agir e se comportar? Passam, dessa forma, a ensaiar os mais diversos tipos de conduta e comportamento, que vão desde as roupas e adereços, passando pelo tipo de música que apreciam e modalidades de relacionamento inter-pessoal e grupal.
Cada grupo vai criando suas próprias modas e regras experimentais as quais, muitas vezes, se chocam com as regras e hábitos da sociedade causando espanto e até indignação entre os adultos. Em função disso o adolescente busca uma distância protetora em relação aos pais, tende a fechar-se defensivamente em seu mundo, em especial o quarto, que expressa o caos interno em que sua própria identidade se encontra no momento. É claro que não é fácil lidar com essa “metamorfose ambulante”, como já dizia Raul Seixas.
Como conseqüência desse processo, a questão dos limites se torna bastante complexa. Ao mesmo tempo em que necessitam de um espaço próprio para experimentação dessa sua identidade em transformação, os adolescente precisam algum grau de limite capaz de lhes oferecer um balizamento quanto até onde é possível avançar nesse processo sem romper as barreiras do socialmente aceitável e da legalidade.
O nosso mundo atual apresenta algumas características peculiares, próprias da atual etapa de desenvolvimento da cultura humana, que atribuem uma complexidade ainda maior a esse processo. Ora, o próprio mundo atual é um mundo em transformação.
Podemos dizer que nossa sociedade passa no atual momento histórico por uma etapa muito semelhante a adolescência.
Os antigos valores e métodos do mundo antigo, que ainda funcionaram mais ou menos bem até, digamos, trinta ou quarenta anos atrás, já não servem mais para a realidade atual. Ao mesmo tempo, ainda não se estabeleceram claramente novos parâmetros adequados ao novo mundo que está surgindo de forma cada vez mais acelerada. À medida que se aproxima a segunda década do novo milênio a velocidade das mudanças atinge uma velocidade vertiginosa, como uma montanha russa na descida. Ciência, medicina, tecnologia, filosofia, e até mesmo a teologia – a mais lenta das tartarugas – trazem-nos novas construções físicas e mentais.
Novas realidades surgem a todo ano, algumas vezes a todos os meses. Muitas coisas que considerávamos com verdades absolutas há algum tempo atrás agora podem não ser mais levadas em conta. Os pais de nossos pais passaram sua vida inteira sem ver quase nenhuma mudança na forma como as coisas eram antes deles.
Nossos pais já assistiram algumas transformações importantes ao longo de suas vidas e já tiveram bastante dificuldade em nos educar. Nós passamos a presenciar mudanças muitas vezes radicais em nossa realidade, colocando em cheque muito do que nossos pais nos ensinaram.
Mal estamos acostumados com as mudanças que presenciamos e continuam a acontecer em ritmo vertiginoso e temos que nos deparar com a confusão e ansiedade de nossos filhos adolescentes diante de um mundo em transformação em relação ao qual os próprios pais e professores mal sabem como lidar e se posicionar.
Até mesmo instituições sociais milenares começam a mostrar sinais de falência. A própria economia, que até recentemente – menos de um ano atrás – seguia leis consideradas inquestionáveis, encontra-se um uma profunda crise criando dúvidas e incertezas em relação ao futuro. Que dizer aos nossos filhos quando eles estão presenciando a destruição do equilíbrio ecológico do planeta, o aquecimento global, a escalada da violência urbana, a falta de oportunidades no mercado de trabalho, o surgimento de novas doenças e o reaparecimento das antigas, o flagelo das drogas, e tantas outras conseqüências criadas por nós e pelas “sábias” gerações que os antecederam? Acrescente-se a isso as enormes pressões e exigências que são colocadas sobre eles para que cresçam e sejam aquilo que nós, a sociedade – e até eles mesmos – esperam deles.
Que autoridade temos nós, então, para orientar nossos filhos, quando nós mesmos nos sentimos confusos, inseguros e desorientados diante de tantas transformações? Como evitar que os jovens duvidem dessa autoridade? Ainda não temos todas as respostas.
Mas, uma coisa é certa, precisamos lidar com nossos jovens com mais humildade. Precisamos admitir que não sabemos tudo e não temos tantas certezas como gostaríamos e aceitar compartilhar com eles a criação de sua própria identidade assim como a re-criação do mundo em que eles irão viver. Essa humildade não significa abdicar de nossa autoridade nem admitir nossa incompetência, e deixar que as posições se invertam. Essa humildade requer sim, abdicar do autoritarismo, da atitude totalitária de quem pensa que sabe tudo e tem todas as respostas.
Precisamos abrir um espaço maior para o diálogo com a juventude e levar mais em conta o que eles tem anos dizer e o que esperam de nós. Será muito mais fácil mostrar-lhes os limites entre o certo e o errado se pudermos estar mais próximos deles de modo que eles possam nos ver e sentir como seres humanos que efetivamente interessados em seu bem estar e desenvolvimento e não apenas e serem obedecidos e reconhecidos como autoridades absolutas e inquestionáveis.
Que, mesmo sendo falhos e não sabendo tudo, somos capazes de lhes dar o amor, a compreensão e o acolhimento de que precisam para superar suas angústias e andar em frente com o nosso apoio e incentivo.
* Médico Psiquiatra
http://www.yatros.com.br
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