Entrevista: Amor, Paixão e Dor – Com
- domingo, junho 7, 2009, 21:18
- Bem Estar, Comportamento, Vivendo Melhor
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Entrevista com Dr. Rubens Mário Mazzini Rodrigues, médico psiquiatra – www.yatros.com.br, feita pela jornalista Vera Milman
Qual a diferença “clássica” entre AMOR e PAIXÃO?
Antes um alerta. Esse é um tema muito amplo, além de controverso, para ser abordado no âmbito de uma entrevista. Podemos aqui apenas dar respostas parciais a algumas questões e levantar outras que ficarão sem resposta. Do ponto de vista “clássico”, aquele que está enraizado no imaginário popular, “paixão” é um amor intenso, de maior magnitude, algo muito desejável, uma experiência maravilhosa que todos gostariam de vivenciar. Estar apaixonado é uma das vivências mais valorizadas, a ponto de as pessoas que nunca se apaixonaram sentirem-se frustradas por nunca terem sido abençoadas com algo tão maravilhoso como a paixão. Muito(a)s sentem-se deprimido(a)s por ainda não terem encontrado uma grande paixão. O amor é considerado um sentimento mais suave, menos intenso, mas mais duradouro, que não chega a arrebatar a pessoa como a paixão.
Na prática estas diferenças são pontuais, visíveis?
Sim, são visíveis, pois a pessoa tomada de paixão sofre uma mudança que pode ser percebida na sua expressão facial, no comportamento, na postura corporal. A pessoa fica sonhadora, suspirosa, anda flutuando, tem diminuição do apetite e da necessidade de sono, o coração bate mais forte, enfim, todos conhecem bem os sintomas.
A paixão é sempre um sentimento doentio, excessivo em relação à outra pessoa?
Bem, é aí que pode ocorrer uma divergência ou controvérsia entre a visão romântica tradicional e a visão do ponto de vista da psicologia ou até mesmo da psicopatologia e da neuropsicofisiologia. Etmologicamente a palavra paixão tem a mesma origem de pathos (doença), tem o sentido de um grande sofrimento, como foi a paixão de Cristo ao antever o que sentiria ao ser cruxificado. Do ponto de vista psicológico a paixão é um estado alterado de consciência que pode ser muito perturbador. Dependendo de como a pessoa reage a esse estado ela pode chegar a um estado que pode ser definido como patológico ou neurótico. Freud não tinha dúvidas de que se tratava de uma neurose, especialmente quando estava associada a sentimentos patológicos de ciúme, na qual o indivíduo apaixonado está sempre encontrando rivais imaginários por todos os lados, o que poderia estar relacionado a um complexo de Édipo mal elaborado ou a dificuldades de auto-estima (que Jung chamou de complexo de inferioridade) com uma conseqüente supervalorização do objeto amoroso. Há ainda a paixão não correspondida (platônica) que pode se tornar uma obsessão. A pessoa vítima de paixão obsessiva não se conforma ou não aceita o rompimento de um relacionamento ou o fato de seu amor não ser correspondido por seu objeto de amor, algo que está relacionado ao narcisismo primário. Aquilo que popularmente se chama de paixão é o sentimento de amor nascente ou enamoramento, que é um sentimento agradável, que traz uma sensação de grande felicidade.
A paixão pode levar ao amor…em que momento e quando percebemos que isto acontece?
Bom, teremos que usar um termo redundante, “paixão doentia”, para diferenciar do que seria uma “paixão normal” (enamoramento). A paixão doentia não evolui para o amor, pois não se trata de um sentimento autêntico de amor, mas sim de um sentimento provocado por carências e dificuldades emocionais ou de personalidade do indivíduo. O enamoramento, como estado nascente, este sim pode levar a um amor maduro, saudável e duradouro. Isso acontece no momento em que se demonstra capaz de atender de forma suficientemente satisfatória as necessidades afetivas dos indivíduos envolvidos.
A pessoa apaixonada sofre, padece, perde a paz. O que podemos fazer para que ela não perca a capacidade de realidade?
Essa perda da paz interior é a principal característica da pessoa vítima de uma paixão patológica. Nesse estado a pessoa, na verdade, já está com a sua capacidade de juízo da realidade bastante comprometida. Argumentos racionais, apelos à razão ou a simples confrontação com a realidade parecem não ajudar. Tentativas nesse sentido podem frustrar mais ainda o indivíduo que pode se tornar hostil (irritado) e até mesmo agressivo com os amigos ou familiares que tentam ajudá-lo. Apenas através do entendimento do que está acontecendo com suas emoções é capaz de ajudar o indivíduo a superar o estado de paixão, para isso pode ser necessário um atendimento psicoterápico e, inclusive, psiquiátrico, pois, dependendo do nível de ansiedade, pode ser necessário o uso de medicamentos, mesmo porque pode haver um outro transtorno subjacente, o que não é incomum.
Qual o perfil psicológico de uma pessoa que se apaixona e se envolve demasiadamente com o sujeito/objeto de sua paixão?
Podem existir as mais diversas situações e diferentes níveis de gravidade nos casos de paixão. O perfil psicológico das pessoas afetadas, portanto, pode ser muito variável. Mas, pode-se afirmar com pouca margem de erro que, via de regra, há alguma fragilidade na formação da personalidade, aspectos pouco desenvolvidos ou insuficientemente amadurecidos da personalidade que predispõe o indivíduo a vir a apresentar esse tipo de sofrimento, ou seja, falhas na formação emocional básica, em especial na capacidade de suportar frustrações.
A paixão pode levar à loucura, literalmente?
Primeiro seria necessário definirmos o que é “loucura”. O que vulgarmente é chamado de “loucura” são transtornos psiquiátricos mais graves, que normalmente são pré-existentes, a frustração amorosa pode, no máximo, funcionar como um fator precipitante de uma agudização. É difícil se afirmar que um indivíduo antes normal possa adoecer gravemente em função de um estado nascente, no máximo poderá ocorrer uma reação depressiva breve em função de uma frustração ou perda amorosa ou o que se chama de reação de ajustamento no caso do término de um relacionamento duradouro.
Como tratar pessoas que perdem a noção da realidade quando estão apaixonadas? Há remédio para isso?
Não existe um “remédio” específico para a paixão, mesmo porque esta não é uma entidade clínica simples, mas uma síndrome (conjunto de sinais e sintomas) que pode estar presente em diferentes circunstâncias. Como sempre em medicina, cada caso é um caso. Precisa-se, então, encontrar as soluções mais apropriadas para cada caso, tanto do ponto de vista psicoterápico quanto medicamentoso (quando necessário), o que será feito a partir de um diagnóstico cuidadoso da situação de cada indivíduo.
É possível dizer que pessoas com este perfil são geralmente pessoas depressivas?
Generalizar seria inapropriado. No entanto, é provável que uma boa percentagem das pessoas acometidas de paixão possam apresentar um transtorno de humor subjacente. Atualmente sabe-se que o estado nascente é capaz de ocasionar a liberação de um potente neurotransmissor responsável pelas reações próprias deste estado, que popularmente tem sido chamado de “droga da paixão”. No caso de pessoas deprimidas, esse neurotransmissor pode ter ume feito benéfico, de alívio dos sintomas depressivos, o que pode ocasionar uma espécie de dependência química, do tipo cantado por Rita Lee na canção que diz “sou dependente do amor”. Há pessoas como que “viciadas” em paixão, precisando saltar de uma paixão para outra, nunca se estabilizando em um relacionamento amoroso duradouro.
Quando a paixão pode ser benéfica, positiva?
Quando não é patológica, no caso, o estado de enamoramento bem sucedido. No entanto, mesmo um enamoramento mal sucedido ou uma paixão, depois de superada pode trazer lições de vida importantes, levando ao crescimento pessoal, desde que o indivíduo consiga identificar e resolver os conflitos emocionais e afetivos que estavam por trás do seu surgimento.
Na sua experiência de consultório quem mais sofre deste mal o homem ou a mulher?
As mulheres, em função de serem, de modo geral, serem mais suscetíveis a depressão e a outros transtornos emocionais, tendem a apresentar esse tipo de problema com mais freqüência. Essa é uma questão muito complexa, pois envolve um tema ainda mais amplo que é o universo das relações homem-mulher, com todas as suas complicações. Haveria que se considerar, por exemplo, até que ponto, ou de que maneira, as reações e atitudes distintas de cada gênero sexual podem influenciar o que acontece nesses casos.
A paixão não tem idade, mas em que período da vida ela é mais suscetível?
Sim, a princípio a paixão pode acometer pessoas de todas as idades, mas, sem dúvida, é mais comum na juventude, quando as pessoas estão mais afeitas e disponíveis ao enamoramento.
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