Lançamento do novo livro de Luis Milman

Nesta coletânea, reúno 49 artigos publicados em meu blog ao longo de 2009. Um deles é de autoria do professor canadense de Direito, Irwin Cotler, que traduzi para o Português. Todos os demais, exceção feita à reprodução de uma entrevista de um pároco lefebrevista e negacionista (que considerei importante incluir no livro), são de minha autoria. Decidi apresentar uma versão impressa dos textos, por sugestão de amigos e leitores que me incentivaram a fazê-lo. De início – por não estar acostumado – relutei em aderir à plataforma virtual da web para manifestar minhas posições sobre os vários temas que despertam meu interesse, reflexões e, sobretudo inquietações. No entanto, tomei a decisão de tornar-me blogueiro a partir do início da ofensiva militar deflagrada por Israel contra o Hamas, na Faixa de Gaza, em janeiro de 2009. Senti, à época, que o noticiário em geral, mas, sobretudo, os comentários sobre a ofensiva e suas consequências, caracterizavam-se por uma tendenciosidade anti-israelense que me obrigava a entrar na arena pública para discuti-la.

No curso do conflito, os textos que postei em meu blog foram divulgados na web por outros sites. Na medida em que isto ocorria, fui recebendo críticas emanadas de uma zona de pensamento, hoje predominante na esquerda, sobre o sionismo, Israel e o problema palestino. Embora não possa, sob pena de ser refutado por alguns amigos e pelos textos de teóricos respeitáveis, como Robert Kurz, tornar irrestrita a apreensão que faz a esquerda dos problemas que envolvem israelenses e palestinos, devo apontar para uma dominante tendência esquerdista, fogosa e desqualificada, que alimenta um preconceito milenar.

Muitos artigos que constam da coletânea dedicam-se a denunciar e desmontar argumentos construídos com base no podre sentimento judeófobo, não de neonazistas, mas tornado progressivamente palatável com nova vestimenta antissionista, desde o final dos anos 60. Nesta época, a esquerda antidemocrática era orientada ainda pela União Soviética e seus satélites terroristas no Ocidente, como o bando Fração do Exército Vermelho, da Alemanha e as Brigadas Vermelhas da Itália, que se aproximaram da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e davam o tom das fórmulas de propaganda anti-israelense no Ocidente. Nesta apresentação, não posso dedicar demorada atenção às conexões entre a ultra-esquerda européia, as organizações de guerrilha da América Latina e a OLP e seus apoiadores soviéticos e, alguns casos, da China, de Cuba e, mais tarde, da Nicarágua sandinista. A figura de Carlos, o Chacal (hoje cumprindo prisão perpétua na França) é emblemática destes elos. Mesmo assim, é importante referí-las e indicar a leitura, para aqueles que desejam aprofundar-se no assunto, de ao menos um livro, o excelente Power and the Idealists, de Paul Berman (W. W. Norton and Company, NewYork, London, 2005).

Hoje, a catequese da velha sociopatia antissemita reformulada politicamente segue os passos de apóstolos como Noam Chomsky (este um reconhecido teórico em linguística, mas um diletante anarco-populista em política, que chegou a se envolver com negacionistas do Holocausto – a este propósito, ver o livro de Pierre Vidal-Naquet, Os assassinos da memória (Papirus, Campinas, 1988) e Neonazismo, Revisionismo e Extremismo Político, organizado por Paulo Vizentini e por mim (Porto Alegre, Editora da Universidade, 2000). Menciono ainda Norman Finkelstein, Ilan Pappe e o grupo que se intitula “os novos historiadores” israelenses, que investem contra a própria legitimidade da existência do Estado de Israel, fundamentando seus argumentos numa historiografia ideologizada, falaciosa e fraudulenta, já desmascarada em seu campo próprio. Para a compreensão desta farsa, recomendo a leitura de Israeli historical revisionism: from left to right, (Portland, Oregon, Frank Cass, 2003) de Anita Shapira, da Universidade de Tel Aviv e Derek Penslar, da Universidade de Toronto, além de Israeli-Jordanian Dialogue, 1948-1953: Cooperation, Conspiracy, or Collusion? (Sussex Academic Press, 2004), de Yoav Gelberg, da Universidade de Haifa, e, especialmente, o estudo minucioso de Efraim Karsh, do King’s College de Londres, Fabricating Israeli History: The ‘New Historians’ (Cass Series- Israeli History, Politics, and Society, 2000).

A esquerdopatia esquemática transforma-se em profissão de fé e alinha-se, em nome do combate ao imperialismo americano e ao antissionismo, ao que há de mais retrógrado e repulsivo no rejeicionismo a Israel: a nazificação do Estado Judeu, a negação do Holocausto e o islamismo radical e jihadista, este uma ideologia anti-ocidental e antissemita, gestada na década de 20 do século passado, com a criação, no Egito, da Sociedade dos Irmãos Muçulmanos. Hoje, esta ideologia difundiu-se no mundo muçulmano como alternativa purista ao modo de vida ocidental e à hegemonia econômica e valorativa do Ocidente, que, alegadamente, oprime o mundo islâmico. O negacionismo, a nazificação e o rejeicionismo são fenômenos ideológicos e políticos dos quais me ocupei em outros livros e em um artigo que integra este livro.

Mas não são apenas das formas de judeofobia que trato na coletânea. A temática abrange questões políticas e conceituais, em textos que variam em extensão, de acordo com os assuntos específicos. No todo, abordam pontos que decidi enfrentar na arena da crítica e da controvérsia públicas e, mesmo que não obedeçam a uma ordem expositiva, expressam meu livre pensar sobre assuntos com as quais me deparo rotineira e especialmente, nas vastas áreas da filosofia, da política e da mídia.

Em seu marco apropriado, os textos que apresento funcionam em duas perspectivas complementares: como um convite à reflexão sobre a penca de informações despejadas pela mídia, atualmente homogeneizada, e como forma de protesto intelectual à anestesia confortável (the confortably numb, como registra a música de Pink Floyd) de pessoas, que se deixam levar por unanimidades maliciosas e, aparentemente, benignas de ideologias ditas progressistas.

Cada artigo pode, ou melhor, deve, em minha opinião, ser lido na perspectiva do comentário e, em muitos casos, do comentário de rebeldia, resultante de minhas convicções e reflexões. Não propus, nos textos que agrupo agora, exercitar a polêmica pela polêmica, mas desafiar antagonistas a exporem seus argumentos de modo transparente e, somente assim, produtivo para o debate intelectual.

No entanto, a quase totalidade das críticas que recebi, descortinava um padrão de fobia ao diferente, repetidas vezes de judeofobia ad hominem, bem característica de um tipo de indivíduos com desordem psíquica, que edificam identidades pessoais a partir de sua integração em rebanhos que agitam bandeiras de um pensamento oracular, o mesmo que, quando levado à sua consumação na história recente, produziu milhões e milhões de cadáveres. Neste sentido, senti-me obrigado a enfrentar, também, a blindagem cognitiva expressa em pretensos argumentos irrespondíveis, mas que, em verdade, não passam de mitomanias facilmente esconjuráveis pela paciência metódica (e haja paciência) e pelo apego à verdade.

Pretendo que minhas abordagens de temas atuais, de ideologias velhas travestidas de novas, de atitudes reprováveis de políticos e intelectuais orgânicos, atuem como pequeno sinal de alerta para pessoas que se inquietam com a profusão, mundo afora, de idéias pseudocientíficas, com a espantosa disseminação do antissemitismo, ao qual me referi acima, com a aquiescência ao relativismo cultural e com a adesão ao culto do politicamente correto, que é repercutido pelos meios de comunicação. Infelizmente, todos eles dispensando-se, cada vez mais, de massa crítica e energia competitiva, submetendo-se a interesses corporativos do big business, que extrapolam, em larga escala, aqueles outros interesses legítimos do jornalismo, como a investigação metódica, o exercício do bom senso e da autocrítica cotidiana, além da busca pelo aperfeiçoamento intelectual, tudo isto repercutindo na opinião forte e embasada e no noticiário claro e fundamentado.

Advieram, neste intervalo de tempo, também questionamentos analíticos ponderados de meus textos, principalmente de amigos, alguns deles mais agudos que outros no que tange à discordância com minhas opiniões. A estes meus críticos agradeço, porque propõem a controvérsia mentalmente sã, que me estimula sempre a estudar e a refletir mais sobre nosso tempo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Related Posts:

  • É amanhã o lançamento do Massinha 3! Novo livro de Juarez F. Rodrigues na Feira do Livro em Porto Alegre
  •   O autor de Massinha e Massinha 2, Juarez F. Rodrigues vai fazer o lançamento do seu mais novo livro de Cartoons na 57ª feira do livro em ..
  • O autor de Massinha e Massinha 2, Juarez F. Rodrigues vai fazer o lançamento do seu mais novo livro de Cartoons na ..
  •   O autor de Massinha e Massinha 2, Juarez F. Rodrigues vai fazer o lançamento do seu mais novo livro de Cartoons na 57ª feira do livro em ..
  • O autor de Massinha e Massinha 2, Juarez F. Rodrigues vai fazer o lançamento do seu mais novo livro de Cartoons na57ª ..

About the Author

has written 309 stories on this site.

One Comment on “Lançamento do novo livro de Luis Milman”

  • Sandra - MG wrote on 27 outubro, 2011, 13:40

    Adquiri o livro via internet, tenho gostado bastante. Estou lendo e relendo-o e corresponde ao que eu esperava dele. Muito esclarecedor e atual os artigos do professor Milman. Faço poré, um poré, é que, por se tratar de um livro, vendido a preço dentro do normal, creio que deveriam ter sido feitas as várias correções ortográficas que se mostram necessárias. Claro que nenhuma compromete o entendimento do texto, mas percebe-se que são erros de impressão, creio eu. Esta é minha única observação não favorável.

Write a Comment

Gravatars are small images that can show your personality. You can get your gravatar for free today!

Copyright © 2012 Tudo Perto – Revista de Bairro. Todos os direitos reservados..
SitesProWeb | HospedagemHost
SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline